As Nádegas da Juventude




Os políticos podem tios velhos que nos assombram com as suas vidas e as suas presenças. Salazar é um exemplo, Cavaco Silva também. A sua influência não será tão grande como a do nosso presidente do conselho, pois o seu reinado foi mais curto, mas a sua postura, a altura crucial em que governou, a forma como, para o bem ou o mal, remodelou a mentalidade portuguesa ainda o tornam uma figura controversa, mais do que quase todos os outros políticos pós-25 de Abril.
Cavaco Silva tornou-se particularmente relevante para a geração que atingiu a maioridade durante o seu governo, e que agora começa a assumir cargos influentes, nos quais pode confrontar essa memória pessoal. É isso que acontece em Maioria Absoluta, de Gonçalo Amorim e Rui Pina Coelho, onde se evoca de forma elíptica e intensa a memória desse anos de contestação dos estudantes, não só às propinas, mas a toda a mentalidade austera do consulado cavaquista.
Os intérpretes são quase todos jovens, demasiado jovens para terem memória desses anos, pelo que entregam ao espectáculo a sua própria juventude, e um desejo visceral de vida que acaba por ser a experiência mais singular do espectáculo. Ou seja, mais do que sobre a contestação às propinas, Maioria Absoluta é uma elegia devastadora das esperanças e das perdas da juventude, da intensidade e angústia do grunge, e uma meditação sobre o desejo juvenil de mudar o mundo, sobre a sua importância e impotência.
E isso traduz-se na cena final: uma evocação de uma das imagens icónicas da contestação às propinas. Uma imagem que não é expressa em palco, mas na rua, como um grito lancinante de levar a juventude, a esperança, a política para fora da representação e para a luta corpo-a-corpo das cidades.